quinta-feira, fevereiro 01, 2007


O momento de ponta nestas últimas semanas, para além de casos muito mais dramáticos como são, por exemplo, o “Caso Esmeralda” – menina que levou pai para a cadeia -, o reaparecimento mais vigoroso de Fidel Castro, na TV cubana e o elevado número de mortes que continuam a ocorrer no Iraque…
... são as campanhas para votação ao SIM ou NÃO AO ABORTO, marcada para 11 deste mês.



Hoje, tive a minha consulta de rotina que me levou a andar a pé na rua. Esta situação chocou de caras com os distribuidores de panfletos publicitários apelativos aos votantes, cada qual com a sua sabedoria e capacidade de persuasão. Primeiro, em Campo Grande, eis uma senhora com aspecto muito religioso entregou-me um panfleto com grafismo insinuador ao patriotismo com bandeira nacional e tudo. Uma verdadeira obra de marketing com literatura fora do habitual, por tal, convidativa a que eu não resista à tentação de a divulgar integralmente. Aqui fica com a devida vénia à autoria (pontuação respeitada):
PREZADO POVO PORTUGUÊS,
Um americano te entregou este panfleto. Nós (pequeno grupo de americanos) estamos aqui pra te aconselhar e NÃO fazer o que no país fiz.Em 1973 nossos filhos e filhas se tornaram alvos fáceis nas mãos daqueles que matam a troco de dinheiro quando a nossa Corte Suprema legalizou o aborto. Muitos de nós fomos engodados a nos calar quando permitimos a legalização do aborto pelas campanhas de marketing que usaram situações extremadas pra nos convencer que o aborto seria necessário e que só o aborto poderia consertar certos problemas.A verdade entretanto é que quase todos os abortos são feitos por conveniência e egocentrismo. Os problemas de abuso infantil e crime juvenil subiram às alturas. E ao invés de sentir-se livres, muitas mulheres sentiram-se devastadas durante os muitos anos de culpa e sofrimento após terem feito um aborto.Não faça o que fizemos! Mantenha o amor pela família. Ame e cuide de seus filhos e filhas. Defenda e cuide de suas esposas e filhas. O aborto so irá o despir de tais virtudes.
No verso do panfleto o espaço permitido pelo A5 em off-set, foi ocupado com imagens impressionantes de fetos (sem prévio aviso de que poderiam afectar pessoas sensíveis) com evocações de citações bíblicas e convidando os leitores a contactarem com o tal grupo de americanos, em três sites e um e-mail.
Segui o itinerário de regresso ao jornal e saí na praça Marquês de Pombal. Aí, gente do Bloco de Esquerda estendia panfletos em formato A4, também em offset mas de concepção gráfica mais profissional com uma chamada na face principal:
“… PUNIDA COM PRISÃO ATÉ 3 ANOS.” – Artigo 140º do Código Penal.
VOTA SIM PARA MUDAR A LEI.
Fim da Perseguição às Mulheres.Na outra face, os textos que pretendem convencer a população a votar SIM. Apenas algumas transcrições, aqui ficam, tal com o fiz em relação ao NÃO.
O NÃO QUER A TODO O CUSTO MANTER A ACTUAL LEI: TRÊS ANOS DE PRISÃO PARA A MULHER QUE ABORTOU.
O NÃO quer manter tudo na mesma: o aborto clandestino em Portugal e, para quem dinheiro, uma viagem a Espanha.
O NÃO faz uma campanha milionária para recusar que o Estado apoie as mulheres mais pobres. Acha que se resolve o problema ameaçando-as de prisão.
O NÃO enche as caixas de correio com fotografias ameaçadoras e manipuladas. Mas o país já percebeu que, no boletim de voto, só sobrará uma questão: chegou a hora de acabar com a perseguição e o julgamento de mulheres por aborto?
O VOTO SIM respeita as mulheres porque não é uma lei criminal que deve decidir quando é que uma mulher tem uma gravidez.O VOTO SIM respeita as mulheres porque acaba com a perseguição e com a humilhação.
O VOTO SIM junta homens e mulheres de todas as opiniões, que querem acabar com os 3 anos de prisão para as mulheres.O VOTO SIM quer uma lei igual à dos outros países europeus, que promove a informação e a responsabilidade das pessoas.



Eu sou pelo SIM. E sou convictamente e vou votar SIM. As verdades são por demais evidentes para que eu nunca criasse um problema de consciência grave. E devo dizer que as imagens que o NÃO publicou, embora me tivessem impressionado - por serem por demais chocantes e abusivas -, são truncadas, não me provaram nada de criminoso. Justifico-me: uma vez vi e outras nn vezes li e soube de casos em que são encontrados recém nascidos abandonados em contendores, casas de banho, locais ermos paridos sabe-se lá em que condições. Fetos que nalguns casos estão mortos e noutros salvos in extremis. Porque razão uma mãe abandona um filho ou mata um filho? Eu não sei responder com verdade provada. Mas entendo que a negação de ser mãe para toda a vida só pode evidenciar medo, arrependimento, falta de informação, fuga às críticas de uma esteriotipada sociedade, naufragando em preconceitos religiosos ou pobreza impeditiva de criar encargos maiores. Isto, neste caso em que o parto acontece mas é escondido. O aborto legal, teria resolvido o problema e evitado a morte de "gente em gestação" completamente com o direito a viver… de gente que teria um futuro, sem nunca ter conhecido seus pais. Isto, sim, é crime grave. Abortar, conscientemente, porque se cometeu um erro ou se foi vítima de abuso sexual… é um direito da mulher grávida, que reconheceu a tempo o seu erro (ou ter sido vítima) por nunca ter sido informada e educada sexualmente. As situações de uma gravidez inesperada são tantas, que enumerá-las seria fastidioso. Apenas, porque entendo os argumentos dos que são pelo NÃO, eu acho que a Lei deveria ser pelo SIM apoiando as mulheres que pretendam interromper a gravidez, depois de justificadas as razões pela opção. E, em caso de ser permitido o aborto, este só deveria ser feito desde que o feto não tivesse atingido o ciclo do sofrimento. E, neste pormenor, não posso pronunciar-me porque sou um leigo declarado. Após a primeira falha do ciclo, a mulher sabe que está grávida. Aí é que deveria requerer o aborto legal, admito eu. Porque depois disso, é porque admitiu engravidar e, nesse caso, deverá sofrer as consequências para não interromper a gravidez, a não ser que hajam outras razões a considerar e a ponderar.

Meus pais, sei lá se o velhote era ou não um fod…, (mas deve ter sido… rss) tiveram 7 filhos. Eu sou o caçula. Não sei se permeio houve algum aborto. Depois de mim ainda nasceu mais uma menina. Eu, casado há quase 50 anos, permiti em ocasião difícil e quando já tinha quatro meninas no “suporte da vida”, que minha mulher fizesse um aborto (uns 1o dias após a falta do ciclo menstrual), que oferecia e maior confiança. Tudo correu sem problemas de qualquer espécie. No, entanto, um ano depois acabámos por encomendar aos deuses que regem estas coisas, mais um rebento na esperança de ser o caçula… e, tudo correu como nós desejámos: nasceu o rapazinho querido que hoje tem 23 anos. Se tivéssemos cometido algum crime, certamente que DEUS NOS TERIA CASTIGADO. E ISSO NÃO ACONTECEU.

-mailto:-carlospereirangola@gmail.com


Imagens retiradas dos sites "Voz da Planície", "Açores.net e Tounalua.blogspot